Voltei a ser eu mesma

Voltando a ser eu mesma

A cada caixa de remédio que abro, o fim chega perto. E é ao mesmo tempo um alívio e simbólico para mim.

Um alívio por sentir que estou voltando a ser eu mesma. Que sensação estranha, né? Como se você tivesse se perdido em algum lugar e, de repente, encontrasse a si mesma novamente.

Simbólico, pois representa que toda uma fase está finalmente chegando ao fim. Que depois de ter passado por 2 burnouts, vivido o pior da minha vida, depois de mais de 4 anos tomando dose máxima desse antidepressivo, eu estou voltando a viver. A uma normalidade.

Como foi passar por essa experiência

Não vou romantizar. Burnout não é “estar cansado”. Não é “trabalhar demais”. É quando seu corpo e sua mente simplesmente desistem. É quando você acorda e não consegue sair da cama. É quando você chora sem motivo aparente. É quando você olha para o espelho e não reconhece quem é esse ser olhando para você.

Depois de muita terapia e medicação, estou superando algo que não desejo a ninguém. Mas sei que muitos estão passando pela mesma situação. Afinal de contas, estamos vivendo uma verdadeira crise da saúde mental.

E aqui está o ponto que ninguém quer admitir: essa crise não é coincidência. É consequência. Consequência de um mercado que valoriza produtividade acima de humanidade. De empresas que descartam pessoas como se fossem peças defeituosas. De uma cultura que diz que você é o seu trabalho, e se você não conseguir produzir, você não vale nada.

Eu acreditei nisso.

E quase morri acreditando.

A empresa que te descarta

Espero que você, assim como eu, uma hora consiga voltar a ser você mesmo. A se sentir bem. A sorrir. Que não tenha crises ao ouvir o nome de pessoas que te fizeram mal. Que consiga uma hora se recolocar no mercado em uma empresa mais humana, e não a que te descartou por não saber lidar com isso.

Porque as empresas não enxergam ou preferem não ouvir: quando você descarta um profissional por burnout, por depressão, por qualquer questão de saúde mental, você falhou como empresa, como gestor de RH. É simplesmente desumano. A empresa perde a experiência, o conhecimento, a lealdade, alguém que poderia ter sido seu melhor ativo. E por preferir economizar no curto prazo, vai perder milhões no longo prazo.

Reinvenção

Eu não consegui me recolocar. Mas me reinventei.

Estou hoje liderando duas empresas e dando suporte a uma terceira. Atendendo a muitas pessoas e desenvolvendo novas soluções para melhorar a vida das pessoas. Trabalhando, como sempre fiz, praticamente de segunda a segunda, manhã, tarde e noite.

E não, isso não me causa um burnout. Isso me anima a continuar. Eu reencontrei essa força dentro de mim.

Porque aqui está a diferença: quando você trabalha para si mesmo, quando você trabalha com propósito, quando você trabalha para fazer diferença na vida das pessoas, não é trabalho. É vocação. É missão. É vida.

O burnout acontece quando falta significado. Quando estamos em um lugar onde não nos valorizam. Quando somos forçados a fazer algo que não acreditamos. Quando confiamos e nos entregamos de corpo e alma a alguém que não nos respeita.

O que mudou em mim 5 anos após o burnout

Quando você volta a ser você mesma, você enxerga as coisas de forma diferente. O trauma te faz enxergar o que é importante, o que vale a pena e o que não vale mais. Aprendi a dizer não e me afastar de pessoas tóxicas, que te sugam e não oferecem nada em troca.

Ainda erro, e muito. Ainda me vejo aceitando projetos que não fazem sentido pra mim. Acabo trabalhando com clientes que não me respeitam (mas aos poucos estou mudando isso). É uma mudança gradual, não conseguimos virar a chavinha de uma hora para outra.

Eu já estive algumas vezes no fundo do poço. Estou fazendo o possível para não voltar pra lá.

A mudança maior foi na qualidade do meu trabalho, das relações, enfim, posso dizer que ganhei qualidade de vida.

Espero que você, que está passando, ou passou por isso, também consiga essa mudança. Espero que você possa voltar a ser você mesmo. Que consiga se reinventar, que encontre um lugar onde seu trabalho tenha significado.

Burnout, depressão e crise de saúde mental são reais. Assim como a recuperação, se reinventar, buscar uma vida melhor.

Empreender pós-burnout

Agora, vem a parte que talvez seja mais importante: como é empreender quando você já passou por um burnout.

Alguns acham que empreender é uma solução mágica, que é só sair do CLT e criar seu próprio negócio, que você vai trabalhar menos, ganhar mais, ser feliz, virar um unicórnio e sair voando. Também queria estar nesse mundo mágico.

Mentira. Ao empreender, acabamos trabalhando mais, muitas vezes de segunda a segunda, manhã, tarde e noite. Estamos sempre “on”, nunca desligamos de fato.

A diferença (óbvia) é que você está trabalhando para si mesmo, criando algo que acredita, que é especialista, que ama fazer.

Se você é CLT e está se sentindo esgotado, não é fraqueza sua, muito menos falta de capacidade (apesar do que podem dizer, ou de como você esteja se sentindo). Tem também o famoso “você não aguenta tanta pressão”. Se formos a fundo, vamos ver que o motivo vem de você estar em um lugar que não te valoriza, não te respeita, te força a fazer algo que você se sente desconfortável.

E se você está considerando empreender, saiba que não é a solução mágica, mas pode ser uma opção. Uma chance de trabalhar com propósito, de se reencontrar como profissional.

Eu reencontrei essa força dentro de mim. Espero que você, que está passando, ou passou por isso, também consiga.

Porque a vida é curta demais para passar em um lugar que te mata. E você é valioso demais para ser descartado.

Se você passou por burnout, ou está passando agora, gostaria de ouvir sua história.

Como você se reinventou? O que mudou?

Foto de Karina Parra

Karina Parra

Karina Parra é fundadora da Iksa, empresa com DNA USP especializada em consultoria de branding e negócios. Com mais de 18 anos de experiência em design e marketing, Karina ajuda empreendedores a construir marcas verdadeiras que crescem de forma sustentável.

Veja a análise

Veja a análise

Caixinha de Branding

Receba nossa newsletter mensal com conteúdos exclusivos de branding, marketing, tendências, inovação e IA e empreendedorismo brasileiro.